Pedras em todas as mãos.
tenho vinho no lugar do sangue;
tenho sangue no lugar do coração.
tenho coração no lugar do cérebro
e o cérebro enjarrado em vinho, em algum lugar desse quarto.
Cinco conselhos para uma vida com menos atrito.
1 – Faça o que te faz feliz, mas sem foder com a vida dos outros.
2 – Mantenha a compostura. Ninguém gosta de gente inconveniente, chata ou que só quer chamar atenção.
3 – Nos piores momentos, nem sempre vai ter alguém pra cuidar do seu cu.
4 – Se fizer algo ilegal, não seja pego. Mas lembre-se do nº 1.
5 – Se não quiser fazer amigos, pelo menos não faça inimigos.
6 – Só encoste no que for comer. Não, não me refiro só a comida.
7 – Corda nunca é demais. Interprete como bem entender.
Sobre o haiti:
(sim, esse é um post escroto.)
me encontrei pensando sobre o terremoto que atingiu o haiti, semana passada.
não vi muita razão pra lamentar. afinal, putz, é um terremoto. não é um genocídio, não é um atentado terrorista, não tem ninguém matando ninguém!
é um maldito terremoto! as pessoas morrem com essas coisas. não é algo não-natural. pessoas morrem nessa coisa. e morrer não é algo não-natural.
sim, ajudar quem ainda está vivo. mas precisa se chorar tanto sobre quem morreu, se todo mundo morre?
a vida é superestimada.
bom dia.
Monólogo
- sabe, eu sou um colecionador.
- sério? o que você coleciona?
- coisas.
- que tipo de coisas?
- coisas. coisas que eu encontro por aí. coisas que eu quebro por acidente e levo um pedaço. coisas que eu roubo. coisas que me dão.
- tipo o que?
- bem…agora eu tenho uma rolha, um isqueiro sem flúido, uma chave de um quarto no qual eu nunca entrei…
- você não acha isso meio…estúpido? sei lá, ficar catando coisas sem valor…vai chegar aos 60 anos com o quarto cheio de lixo…
- …e uma carta de baralho. um rei de ouros. minha memória é fraca. quando lembro dessas coisas, lembro de como consegui, quando, e porquê.
- mas se prender a essas coisas não te deixa muito…nostálgico?
- talvez.
…silêncio.
- sabia que o rei de ouros é júlio césar?
Antes fosse.
Não importa o que te digam. A vida é uma merda.
Eu sei disso porque já passei por muita coisa. Vi o mundo mudar de mais. A única coisa que se manteve presente em toda minha vida foi isso: o tempo todo, eu ‘tava reclamando de alguma coisa. Nunca é bom o suficiente. Não, não tem nada a ver comigo. Sempre tem algo errado com o mundo. E é exatamente aí que você vai encontrar refúgio se sua vida estiver uma maravilha: na empatia. No resto do mundo. Você vai descobrir que alguém está mal, e ficar mal com ela. Isso é bom. Isso te torna humano. Não se culpe por isso, meu neto. Não muda nada. O importante é enxergar além desse peso. É medir as coisas boas como mais ‘pesadas’ que as ruins. Porque é isso que vai ficar no final, isso eu posso dizer. Se o final é bom, você só vai lembrar das coisas boas. Se o final é ruim…bem…eu não faço idéia. Acho que vou ter que viver de novo p’ra saber saber disso, n’é?
Bem, é isso. Se eu pudesse deixar uma mensagem pra você, seria esta: Seja feliz. Mesmo que a vida seja uma merda, apegue-se aos bons momentos e seja feliz.
- Álvaro.
(ou qualquer um.)
Uma tarde insone com a minha mãe.
Opa, acho que tô engasgando.
Ah, tudo bem.
É só sarcasmo.
Hélio
Hélio já estava cansado. O dia de trabalho não foi fácil, e ele só saber o que faria depois. Então, como quem não queria nada, ele girou a cadeira da frente do computador, no cubículo onde trabalhava diariamente; e esticou as pernas na tentativa frustrada de relaxar; soltou um bocejo para intimidar a vontade de trabalhar; e olhou o relógio.
E acabou olhando olhou para o relógio. E lembrou-se de uma coisa ou duas.
Como quando correra na fazenda de seu avô junto com seu pai, que sempre se cansava primeiro. Quando brincara com sua prima, até ela morrer de leucemia, aos 11 anos. Quando sua mãe fora embora de casa, quando ele tinha 15 anos. Quando recebeu o relógio de seu avô, que falecera na manhã anterior. Quando seu pai se tornou alcoólatra. Quando prometera ser mais forte e superar todas as coisas horríveis que estavam acontecendo. Quando conseguira o primeiro emprego. Quando o trabalho começara a se acumular. Quando aumentara sua carga horária semanal, e pensara que não ia dar conta. Quando começara a fumar incessantemente para tentar se manter calmo diante das pressões do trabalho. Quando se acostumara com aquele processo repetitivo de ler e escrever relatórios e planilhas de custos. Quando se casara, e sua esposa apenas reclamara dos finais de semana de trabalho, falta de atenção e excesso de venenos no marido. Quando o sexo se tornara raro, e depois, impossível.
E tudo isso o remeteu ao presente. Então ele olhou as horas. É, hora de parar para um café. Quinze minutos depois, começou a hora-extra de Hélio.
Sem velas.
A atmosfera afogava. Parecia estar revivendo o útero. Ouvia os secos gritos amanhã, e a respiração ofegava. Agonizava.
Os sinos batiam a meia-noite, e o som ecoava pelos telhados e labirintos, entrando incômodo em seus ouvidos. Meia-noite e um. Cada músculo, cada osso, cada tendão latejava de dor. Uma lágrima se manuscrevia por seu rosto pálido e frio. No entanto, a gravidade hesita em torná-la realidade.
A insônia envolve com desespero e ansiedade pelo dia seguinte. A vida começa a se fomentar ao redor do feto. O verde se estabelece não só nas paredes brancas e pálidas como sua pele, mas também pela própria pele, assustada com o som a sua volta, substituindo o silêncio, ela abre os olhos cansados.
Observa brotar o dia no quarto, pelos poros da cortina. O sol é preguiçoso ao atravessar cada milímetro… a impaciência cresce…cresc…cres…cre…cr…c…
Feliz, finalmente ela adentra o reino tangencial que deveria ter encontrado antes, só não sabia onde procurar. A melhor sensação sentida, mas jamais lembrada. Então, nesse céu, agora nublado e escurecido, estoura um trovão, que a envia de volta à angústia, à antipatia, à monotonia e à enxaqueca.
Meia-noite e três.
Só então, ela nota de fato não lembrar. Só então, ela pendura o pescoço no lustre da sala. Só então, sua impaciência some.

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